Publicarei aqui artigos, na visão da igreja católica, que tratam de temas da atualidade.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por que nem sempre, como cristãos, lemos a Bíblia, rezando-a?

Segundo o calendário católico, o mês de setembro é o mês da Bíblia. Nele somos convidados a refletir mais profundamente sobre o valor da Palavra de Deus, como instrumento de transformação pessoal e comunitário. Nas muitas atividades que desempenho na Diocese de Dourados, é comum ouvir muitas perguntas, uma delas é por que nem sempre, como cristãos, lemos a Bíblia, rezando-a?
Acredito que entre os católicos foi fruto do crescimento da Igreja, que confundiu quantidade com conhecimento de Cristo. Mas outros fatores desencadearam tais realidades: a pouca "cultura" do povo, poucos sacerdotes para formar as pessoas, etc. O fato, é que perdemos muito tempo sem fazer da Palavra a fonte de formação de todos os cristãos.
Contudo, a Palavra exige uma boa interpretação, caso contrário, pode ser usada como instrumento fundamentalista, gerando assim, não os frutos que Deus quer produzir e sim, as desordens que nós somos capazes de ocasionar.
Por isso, sua pergunta é interessante, porque começa lembrando que nem sempre lemos a Bíblia rezando-a. Eis algo que deve nos fazer pensar! O demônio também lia a Bíblia, basta lembrar quando ele tentou Jesus no deserto (cf. Mt 4, 4ss), o mesmo recordava passagens das Sagradas Escrituras com o desejo de deixar Jesus confuso acerca do seu ministério.
Portanto, qualquer um: incrédulo, historiador, pessoas com interesses diversos, podem ler a Bíblia. Lê-la rezando, é diferente, nem todos são capazes de fazê-lo. Um historiador pode simplesmente procurar na Bíblia fotos históricos – sem com isso verificar a teologia que permanece como "pano de fundo". Porém, o cristão deveria ser mestre neste ofício! Quem ler a Bíblia, por ser um livro que revela a fé de um povo, o povo de Deus, deve estar em espírito orante, onde o Espírito do Senhor quer revelar o que a Palavra tem a dizer àquele que reza. Não foi por acaso que aproximadamente há um milênio, se criou o método da Leitura Orante da Palavra, método que volta nos nossos dias com muita força.
São Paulo diz que "a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes (...). Tudo é nu e descoberto aos olhos d’Aquele a quem haveremos de prestar conta" (Hb 4,12-13). A Palavra de Deus opera naquele que crê, naquele que a recebe e a acolhe. Ali ela dá muitos frutos. Ela é, portanto, um instrumento indispensável para a nossa santificação. Sem ela não conseguiremos ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5) sem ouvir, ler, meditar, estudar e conhecer a sua Palavra. São Jerônimo, que traduziu a Bíblia do grego para o latim, dizia que "quem não conhece a Palavra, e conhecer significa ler e rezar, não conhece a Deus".
O certo é que ela tem "poder", não foi por acaso que Jesus a utilizou como uma arma na luta contra o tentador, se Ele a usou, quanto mais nós precisamos dela! Assim, é importantíssimo o estudo da Bíblia, de maneira sistemática e organizada, se possível até, através de um curso bíblico. É preciso trazer a Palavra de Deus no coração, para poder sacá-la, na hora da tentação, como Jesus fez, para nos oferecer o exemplo.
Jesus é a própria Palavra de Deus, o Verbo de Deus que se fez carne (Jo 1,1s). Bem aventurados são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!´ (Lc 11,28). Quando Jesus explicava as Escrituras para os discípulos de Emaús, eles sentiam "que se lhes abrasava os corações" (Lc 24,32). Assim também continua a ser hoje, para todo aquele que reza a Palavra de Deus. Ela o purifica no fogo do Espírito Santo.
Todos os santos, sem exceção, mergulharam suas vidas nas Escrituras e deixaram-se guiar pelos seus ensinamentos. Pela meditação diária da Bíblia, o Espírito Santo vai nos santificando, isto é, fazendo com que, passo a passo, tenhamos, como disse São Paulo, "os mesmos sentimentos de Cristo Jesus" (Fl 2,5).
Hoje, fala-se que a catequese deve ser bíblica, que a pastoral deve ter mais a Bíblia como fundamento que os documentos (não estamos pedindo para esquecê-los), que Ela deve ser o nosso livro de cabeceira. Enfim, que retomemos a tradição, onde a Palavra de Deus tem lugar central, pois assim como a Eucaristia, a Palavra é um banquete que alimenta e fortalece na caminhada aqueles que creem.

*Coordenador de Pastoral e Assessor de Comunicação da Diocese de Dourados.

A sua língua é afiada para o bem ou para o mal?

Uma pesquisa entre jovens alemães a partir de 14 anos, revelou que as pessoas inventam alguma mentira a cada oito minutos: "São aproximadamente 200 inverdades durante o dia", seis mil durante o mês, calcule isto num ano...
Na Palavra de Deus encontramos diversas instruções e exortações em relação ao uso da língua. Por exemplo: "A morte e a vida estão no poder da língua, aqueles que a escolhem comerão do seu fruto". (Provérbios 18,21).
Transcrevo uma história que ilustra todo o poder do que falamos ou deixamos de falar. "Um homem riquíssimo tinha convidado muitas pessoas para uma festa. Encarregou seu cozinheiro-chefe de comprar os melhores alimentos. Este foi ao mercado e comprou línguas – somente línguas e nada mais. Apresentou-as como primeiro prato, segundo prato, etc., servindo somente línguas aos hóspedes. Os convidados elogiaram a composição da refeição e a ideia original do cozinheiro.
Mas, aos poucos começaram a ficar saturados de tanto comer línguas. O anfitrião irritou- se e mandou chamar o cozinheiro: Não mandei que você comprasse o que há de melhor no comércio? Ele respondeu: Existe algo melhor do que línguas? Ela é o vínculo na vida social, a chave para todas as ciências, o órgão que proclama a verdade e a razão. Graças ao poder da língua, edificam-se cidades e as pessoas tornam letradas e cultas. "É verdade, concordou o dono da casa. E mais uma vez encarregou o cozinheiro de preparar outro banquete para o dia seguinte, com a ressalva de comprar o que de pior houvesse na feira. Novamente este comprou línguas, somente línguas. Preparou-as das mais variadas maneiras para o banquete. Já que os convidados eram os mesmos, enojaram-se rapidamente do cardápio. O anfitrião sentiu-se ridicularizado e envergonhado, e gritou com chefe da cozinha: Não mandei que você comprasse o que há de pior? O que você está pensando? Por que serviu línguas outra vez? Ele respondeu: A língua também é o que há de pior no mundo, a mãe de todas as contendas e discórdias, a fonte de todos os processos judiciais, das diferenças de opinião e o instrumento que incita à guerra e à destruição. Ela é o órgão que propaga enganos e difamações. Pessoas são levadas ao mal, cidades são destruídas e vidas são aniquiladas pelo poder da língua".
Para o verdadeiro cristão, bem distante deve estar a mentira, a fofoca, a calúnia, a contenda e a língua hipócrita. É bom ler o Salmo 15,1-3.
Observem esta outra história. "Um Senhor idoso foi solicitado a conversar com um jovem de sua comunidade que havia roubado de seu chefe e estava na prisão. Parece que eu conheço de algum lugar, disse o homem ao jovem, você não me é estranho. Com certeza, respondeu o prisioneiro, já faz mais de dez anos, mas parece que foi ontem, pois me lembro claramente de nosso encontro. O senhor é o culpado de eu me encontrar nesta prisão. – Mas como? Surpreendeu-se o visitante. Em toda minha vida não lhe fiz mal algum! – Não propositalmente; mas certa vez eu vinha com meu pai de uma evangelização, quando encontramos com o senhor no caminho. Meu coração estava profundamente tocado pela pregação que ouviria e eu queria voltar para derramá-lo diante do evangelista. Mas aí ouvi o senhor ridicularizando o pregador, dizendo que ele era inculto e não sabia pregar direito. Essas palavras despertaram em mim um desprezo pela pregação que acabara de ouvir, e a partir de então parei de buscar a salvação da minha alma. Comecei a andar em más companhias e hoje estou aqui na prisão".
Portanto, tudo o que falamos fica registrado no céu. "Uma resposta branda aplaca a ira, uma palavra firme atiça a cólera". "A língua dos sábios, cura" (Pr 12,18;15,1), a língua que mente e calunia, é amaldiçoada.
Muitos males seriam evitados se a língua servisse à sua função natural. Cuidemos desta obra de arte do Criador!

*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

’’Fofocas envolvendo padres’’

Recentemente alguém me perguntou como os padres suportam as críticas. Respondi que a vida de um sacerdote é igual à vida das outras pessoas. Não é somente do padre que se fala, qualquer pessoa que estabeleça um relacionamento mais próximo, seja do mesmo sexo ou não, logo aparecem as fofocas.

Infelizmente vivemos numa sociedade erotizada, o sexo está à flor da pele, sobretudo está na cabeça de muitas “cabeças ocas”, porque assim são algumas pessoas, “cabeças ocas”. Será que homens ou mulheres e/ou homens com mulheres não são capazes de viver uma amizade - sem necessariamente ter que acabar em sexo? Seria o mesmo que dizer que nenhum ser humano é capaz de ser sincero, franco, aberto. Pessoalmente acredito no ser humano, sabe por quê? Porque acredito em mim mesmo! Aqueles que vivem imaginando e criando casos para os outros - têm na cabeça este desejo de praticar certos atos libidinosos, portanto o problema não está no outro.

Mas quanto a citar o nome de padres com mais freqüência, isto acontece porque o sacerdote é um homem visado na sociedade, seja pelo destaque social, seja pela vida celibatária. Contudo, nem Jesus escapou dessas acusações, é só olhar o Evangelho narrado por Lucas 7, 31-35, ali Jesus se pergunta como comparar a sua geração, porque vivia criando fofocas.

João Batista era uma pessao sem modismo, diziam ser ele possuído por um demônio, sendo Jesus aberto e transparente, a tal ponto de conviver com todos, o chamavam de comilão e beberrão, e mais, ainda hoje, Jesus está sofrendo dos mesmos problemas dos sacerdotes, isto é, arranjaram-lhe uma namorada: Maria Madalena, virou a amante de Jesus depois de dois mil anos e teve até filhos..., não é assim que escrevem autores e parte da imprensa? Nem Ele escapa, imaginem o sacerdote.

Outro fato bastante sério e que as pessoas não se dão conta, além da tendência às fofocas, é que vivemos na sociedade do denucismo (denúncias sem provas), assim fazem os meios de comunicação e o povo muitas vezes imita, falando de tudo e de todos, sem medir as conseqüências.

Nós padres, devemos saber que na nossa missão estas coisas podem e certamente acontecerão, pelo menos uma vez na vida o sacerdote será caluniado, mas isto não significa que pelo menos uma vez na vida a calunia será provada, porque a grande maioria é simplesmente falácia, porém que faz um mal terrível, porque pode atrapalhar o ministério de alguém que deixou tudo para servir a Deus.

Pode ser que em alguns casos tenha algo de verdade, existem na Igreja – infelizmente – pessoas que fazem coisas desagradáveis, porém nem de longe é maioria, “um em cem”, às vezes até menos, mesmo assim não autoriza ninguém a sair por ai denegrindo a imagem de outros, quem faz fofoca, se fosse verdadeiramente cristão, não falaria para outros, mas procuraria a própria pessoa para ajudá-la, com provas e não com suposições.

É bom que o mexeriqueiro também se lembre que ele terá que prestar contas a Deus e que poderá ser chamado para prestar contas a justiça civil. Eu mesmo estou me conscientizando que certas maldades devem ser provadas na justiça, quem fala deve provar e não esperar que o acusado prove sua inocência. Se eu digo algo de um padre ou de qualquer outra pessoa deveria ser capaz de provar, caso o contrário dou-lhe o direito de me processar – sem contar que estarei infringindo o nono mandamento: “não levantar falso testemunho”. Agora, se Deus não significa nada para estas pessoas, seus mandamentos menos ainda, por isso brincam de cristãos.

Ninguém gosta de ser caluniado, mas esquece desta prerrogativa na hora de caluniar os outros. Jesus diz no Evangelho: “faça aos outros, aquilo que gostaria que os outros lhe fizesse, não faça aos outros aquilo que gostaria que não lhe fizessem”. É sempre bom lembrar disso.

Ao sacerdote cabe viver bem com a sua consciência e com Deus e não tentando provar para ninguém que o acusador está errado. Que ele se acerte com Deus. É necessário também que o padre se assemelhe ao Cristo, que saiba sofrer e dele tirar proveito para o seu ministério, pois na é “fraqueza que encontramos a fortaleza”, lembra São Paulo.

*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados

Ensino religioso diminui a violência

Pode ser que alguém me interprete mal (por ser um religioso), achando que quero implantar nas escolas a doutrina católica. Mas o fato é que, antes, quando o ensino religioso era lecionado nas escolas, a violência não era tão assustadora. Outro fato que comprova a sua eficácia é o comportamento dos alunos nas instituições escolares, inclusive públicas, que decidiram mantê-lo no currículo.

Em contrapartida, muitos políticos sugerem, como meio para diminuir a violência, a liberação das drogas. Em entrevista ao Jornal do Brasil, Sérgio Cabral, Governador do Rio de Janeiro, defendeu uma medida polêmica: a liberação do uso de drogas, desde que se tenha como aval foros internacionais coordenados pela Organização Mundial de Saúde, para o País não virar uma "Walt Disney da droga". Para Cabral, "a proibição pela proibição traz um número de mortes muito maior do que se tivéssemos uma legislação mais inteligente, mais voltada para a vida como ela é".

Se de fato, a vida, como cita o Governador, tivesse a preponderância na escala de valores, aí sim nem se falaria de liberação de drogas, mesmo porque esta não seria o "bicho-papão" que se tornou nas últimas décadas. Tudo isso começou com o aval da "sociedade adulta e permissiva", que injustamente acusa a juventude como fonte deste mal. Nunca é demais recordar os anos 60, com o movimento "musical" que "pregava a liberdade", no entanto, era uma liberdade sem responsabilidade, muitas vezes regada à drogas, nessa época, todos se calaram e acharam bonito. A sociedade de hoje é filha de ontem, os pilares éticos foram abalados e ainda assim, continuamos de olhos vendados atacando as consequências e esquecendo as causas, e a falta de religiosidade é uma delas.

Voltando à questão da religiosidade, não defendo uma volta a princípios medievais, ou a formas novas de comercializar a religião, como muitas instituições o fazem, falo de destacar no ensino religioso valores transcendentais esquecidos, que como bem salienta Victor Frankl, médico - psiquiatra, filósofo, pai da logoterapia: tudo se resume na falta de sentido da vida. Se o homem vive só na perspectiva do materialismo, a vida vira um caos.

Em relação aos políticos, esta possível permissão significa que Sérgio Cabral, que governa um dos Estados mais importantes da Federação, está de acordo com a liberação dos entorpecentes, não pelo que representam as drogas, mas pelo que delibera a Organização Mundial da Saúde. Porém, ele é apenas mais um que vem a público manifestar sua opinião; recentemente, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso "usou" os meios de comunicação para defender a mesma ideia, compartilhada por outras personalidades nacionais e internacionais. Nas suas manifestações públicas, FHC cita a Holanda como exemplo, mas só não revela que depois da liberação, o consumo aumento 400%, portanto, não estagnou e muito menos diminuiu.
Ao falar de ensino religioso e uso de drogas, misturando com a questão da violência, podem pensar que estou fazendo "um samba de doido", na realidade, estou simplesmente manifestando uma convicção com base em índices de outrora, dos quais fui beneficiado, e atuais, comprovados nas escolas que levam a sério esta prática.

Quais as razões que justificam tal defesa? Ora, se o homem é mais que matéria, é evidente que a busca de sentido não pode ser encontrada no materialismo, se a religião prega valores transcendentais, através dela o ser humano pode encontrar sentido para viver eticamente no mundo material. Este encontro retira do coração humano aquela busca desenfreada pelo imediato, que no fundo também é busca de sentido, porém, por caminhos errôneos. Não o encontrando, sobretudo o jovem, arrisca-se por outros caminhos: drogas e violência. Pior são aqueles que comercializam!

Desta forma, o ensino religioso, longe de ser uma ameaça à liberdade, seria um aliado na busca e na construção de uma sociedade mais equilibrada, mas fraterna e justa. Como exemplo de programa que deu certo, para aqueles que desejarem mais informações, é só buscar os índices do município de Sorocaba, SP (e outros), onde o ensino religioso se tornou um aliado no combate à violência.

*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados.

Você não é aquilo que pensa ser

Meus amigos somos bombardeados diariamente com livros e programas televisivos, sobretudo religiosos, que querem nos fazer acreditar que basta pensar positivamente e assim nossos problemas desaparecem. Gostaria de oferecer no presente artigo algumas considerações. Para tanto, começo com a frase celebre de Jesus: "Quem quer me seguir tome a sua cruz e siga-me".

Parece-me que o pensamento positivo explodiu mais fortemente nos anos 80, com as grandes demissões no mundo corporativo e o advento mais preponderante do "mercado". As empresas começaram a promover esses eventos sobre motivação porque, primeiro, não queriam pessoas reclamando sobre a instabilidade de seus empregos, e, segundo, queriam "enfiar" mais trabalho nas pessoas. Foi a partir dessa época que vender livros de autoajuda se tornou um grande negócio.

Analisando o pensamento positivo, imagine quando se recebe o diagnóstico de uma doença grave ou se perde o emprego. O melhor a fazer é encarar a realidade, descruzar os braços e agir rápido. Aí sim o resultado poderá ser muito positivo. Encarar a doença, e não ficar choramingando pelos cantos é diferente de somente "pensar positivo". Ter que fazer de conta que tudo é positivo é como ter uma segunda doença. O certo é assumir que não gostamos do que foi diagnosticado e lutar para encontrar formas de mudar as coisas.
Por que insisto que os livros de autoajuda, em grande parte são prejudiciais? Porque estamos acostumados a ouvir que, se pensarmos positivamente, as coisas boas virão. Muita gente pobre ouve isso nas igrejas: Deus quer que você seja rico, Deus quer que você tenha uma casa maior. E aí, se algo acontece já parece milagre, e o seu esforço? É claro que Deus faz milagre, mas não é fruto do acaso! Esse tipo de pensamento já arruinou muitas vidas e faz parte do pensamento positivo, aliás, no caso religioso, Deus não é o que É, Ele é fruto da nossa cabeça, fruto do pensamento positivo. Imagine se Jesus dissesse na cruz: "Não, isso não é nada, é fruto do meu pensamento negativo"!

Nos níveis mais altos do mundo empresarial, também havia essa ideia de que nada poderia dar errado. Se algum funcionário levantasse alguma dúvida, seria mandado embora, porque não queriam trabalhar com pessoas negativas. As pessoas não podem continuar se autoenganando continuamente sem correr sérios riscos. Com isso, não proponho pessoas pessimistas, enganadas, e sim realistas, de bem com a vida, não obstante as circunstâncias.

Outro fato é que a ideologia do pensamento positivo é terrivelmente individualista. É só você que tem que mudar, o mundo não. Os livros de autoajuda nunca perguntam como seus desejos podem entrar em conflito com os do outro. Outra questão é que, no pensamento positivo, não se ver o mundo de forma ampla, pensar no que ele está fazendo com você, é visto como uma tentativa de encontrar uma desculpa para seus problemas. Se você pensa que seus problemas se devem à discriminação racial ou ao fato de você ter nascido pobre, isso não passa de uma desculpa, porque você tem tudo para ser bem sucedido e superar qualquer coisa. Porém, precisa mudar não só você, necessita-se lutar também contra as injustiças com os outros.

Ademais somos energia e dela tiramos nossa força vital. Se carregarmos nossas "baterias" para o pensamento positivo também criamos várias implicações, por exemplo, se você lê esses livros de autoajuda e neles coloca a soluções de seus problemas, aprende que tem que acordar, recitar afirmações para si mesmo, colocar um quadro na parede e pregar nele figuras do carro e da casa que quer... É muita energia mental. E as pessoas que praticam isso acabam se afundando ainda mais na própria culpa.

Porém, por que os livros de autoajuda são tão populares? Eis uma pergunta inteligente. Porque não se quer enfrentar a realidade. É claro que seria ridículo achar sempre que tudo vai dar errado, pensando só sobre nossos defeitos. Mas por que não tentar olhar para o mundo, tanto quanto possível, como ele é? E ver quais são as oportunidades e os perigos, e aí tentar descobrir o que fazer a respeito, seja o aquecimento global, seja o desemprego?

Mas alguém pode perguntar: para curar a depressão não é necessário pensamento positivo? Achar que tem cura é diferente de pensamento positivo, porque é uma doença séria, que requer algum tipo de intervenção, como terapia ou medicação. Você não pode simplesmente passar panos quentes dizendo: pense positivamente. Nos Estados Unidos, berço do pensamento positivo, consome-se dois terços do mercado global de antidepressivos, um clássico exemplo de contradição.

*Meus amigos, quem sabe noutra oportunidade aprofundo a reflexão sobre as raízes deste pensamento.
*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Nem sempre a voz do povo é a voz de Deus

Não sei quem foi o "inteligente" que criou esta frase que não corresponde à verdade: "a voz do povo é a voz de Deus". Na antiga Roma, os imperadores costumavam dizer que o povo só precisava, para ser enganado, de "pão e circo". O povo, para muitos, não passa de objeto de manipulação. Por isso, muitos costumam usar o chavão: "a voz do povo é a voz de Deus", agora querem baixar a maioridade penal usando a comoção da população amedrontada.

A voz do povo até pode ser a voz de Deus, mas a voz de Deus nem sempre é a voz do povo. O clamor social pela redução da maioridade não é a voz de Deus, pode ser a voz do Diabo.

Você diria que, quando o povo clamava pela crucifixão de Jesus Cristo, não obstante Pôncio Pilatos se recusasse a crucificá-lo, a voz do povo era a voz de Deus? Bem, se a voz do povo, naquela ocasião, era a voz de Deus, somos forçados a concluir que a voz de Deus era a voz do Diabo. É um escândalo, porque neste caso, Deus almejava matar a si mesmo.

Segundo alguns órgãos de imprensa, 84% da população brasileira é favorável à redução da maioridade penal. Seria, neste caso, a voz do povo a voz de Deus ou a voz do Diabo? Hitler, ditador e assassino que governou a Alemanha e desencadeou a II Guerra Mundial, subiu ao poder e executou suas políticas de morte - apoiado pela maioria do povo. A voz do povo, em relação a Hitler, era a voz de Deus? E as vezes que elegemos os anões da previdência, os parlamentares da máfia das ambulâncias, do mensalão, nossa voz (voto) era a voz de Deus?

Mas alguns espertalhões, que querem dar pão e circo, irão se utilizar do sofisma denominado: "apelo à Multidão", que consiste em afirmar que algo é sensato apenas porque a maioria aprova. O critério da verdade não é quantitativo, mas qualitativo. Aliás, "Justiça", para "certas pessoas de influência" na sociedade, é forjar uma retórica que veda à população o direito de uma sociedade justa. Quem poderia legalmente usufruir as benesses da sociedade - não lhe é permitido, quem não pode legalmente, infelizmente é quem usufrui. Por exemplo, os bandidos de colarinho branco não ficam presos porque têm dinheiro e podem pagar bons advogados ? como se realmente não fossem culpados. É meu amigo/a, retórica é bem diferente do real.
Com isso, simplesmente digo que muita gente fala de justiça e age injustamente. Então como pensar em paliativos, sem agir concretamente nas causas da violência? Façam o que quiserem ? criando mais Leis ? de nada valerá se o nosso agir não mudar como sociedade, como família, como indivíduo.

Portanto, neste caso, a voz do povo nunca foi - não é - e nunca será a voz de Deus.

*Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados.