Segundo o calendário católico, o mês de setembro é o mês da Bíblia. Nele somos convidados a refletir mais profundamente sobre o valor da Palavra de Deus, como instrumento de transformação pessoal e comunitário. Nas muitas atividades que desempenho na Diocese de Dourados, é comum ouvir muitas perguntas, uma delas é por que nem sempre, como cristãos, lemos a Bíblia, rezando-a?
Acredito que entre os católicos foi fruto do crescimento da Igreja, que confundiu quantidade com conhecimento de Cristo. Mas outros fatores desencadearam tais realidades: a pouca "cultura" do povo, poucos sacerdotes para formar as pessoas, etc. O fato, é que perdemos muito tempo sem fazer da Palavra a fonte de formação de todos os cristãos.
Contudo, a Palavra exige uma boa interpretação, caso contrário, pode ser usada como instrumento fundamentalista, gerando assim, não os frutos que Deus quer produzir e sim, as desordens que nós somos capazes de ocasionar.
Por isso, sua pergunta é interessante, porque começa lembrando que nem sempre lemos a Bíblia rezando-a. Eis algo que deve nos fazer pensar! O demônio também lia a Bíblia, basta lembrar quando ele tentou Jesus no deserto (cf. Mt 4, 4ss), o mesmo recordava passagens das Sagradas Escrituras com o desejo de deixar Jesus confuso acerca do seu ministério.
Portanto, qualquer um: incrédulo, historiador, pessoas com interesses diversos, podem ler a Bíblia. Lê-la rezando, é diferente, nem todos são capazes de fazê-lo. Um historiador pode simplesmente procurar na Bíblia fotos históricos – sem com isso verificar a teologia que permanece como "pano de fundo". Porém, o cristão deveria ser mestre neste ofício! Quem ler a Bíblia, por ser um livro que revela a fé de um povo, o povo de Deus, deve estar em espírito orante, onde o Espírito do Senhor quer revelar o que a Palavra tem a dizer àquele que reza. Não foi por acaso que aproximadamente há um milênio, se criou o método da Leitura Orante da Palavra, método que volta nos nossos dias com muita força.
São Paulo diz que "a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes (...). Tudo é nu e descoberto aos olhos d’Aquele a quem haveremos de prestar conta" (Hb 4,12-13). A Palavra de Deus opera naquele que crê, naquele que a recebe e a acolhe. Ali ela dá muitos frutos. Ela é, portanto, um instrumento indispensável para a nossa santificação. Sem ela não conseguiremos ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5) sem ouvir, ler, meditar, estudar e conhecer a sua Palavra. São Jerônimo, que traduziu a Bíblia do grego para o latim, dizia que "quem não conhece a Palavra, e conhecer significa ler e rezar, não conhece a Deus".
O certo é que ela tem "poder", não foi por acaso que Jesus a utilizou como uma arma na luta contra o tentador, se Ele a usou, quanto mais nós precisamos dela! Assim, é importantíssimo o estudo da Bíblia, de maneira sistemática e organizada, se possível até, através de um curso bíblico. É preciso trazer a Palavra de Deus no coração, para poder sacá-la, na hora da tentação, como Jesus fez, para nos oferecer o exemplo.
Jesus é a própria Palavra de Deus, o Verbo de Deus que se fez carne (Jo 1,1s). Bem aventurados são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!´ (Lc 11,28). Quando Jesus explicava as Escrituras para os discípulos de Emaús, eles sentiam "que se lhes abrasava os corações" (Lc 24,32). Assim também continua a ser hoje, para todo aquele que reza a Palavra de Deus. Ela o purifica no fogo do Espírito Santo.
Todos os santos, sem exceção, mergulharam suas vidas nas Escrituras e deixaram-se guiar pelos seus ensinamentos. Pela meditação diária da Bíblia, o Espírito Santo vai nos santificando, isto é, fazendo com que, passo a passo, tenhamos, como disse São Paulo, "os mesmos sentimentos de Cristo Jesus" (Fl 2,5).
Hoje, fala-se que a catequese deve ser bíblica, que a pastoral deve ter mais a Bíblia como fundamento que os documentos (não estamos pedindo para esquecê-los), que Ela deve ser o nosso livro de cabeceira. Enfim, que retomemos a tradição, onde a Palavra de Deus tem lugar central, pois assim como a Eucaristia, a Palavra é um banquete que alimenta e fortalece na caminhada aqueles que creem.
*Coordenador de Pastoral e Assessor de Comunicação da Diocese de Dourados.