Publicarei aqui artigos, na visão da igreja católica, que tratam de temas da atualidade.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Você não é aquilo que pensa ser

Meus amigos somos bombardeados diariamente com livros e programas televisivos, sobretudo religiosos, que querem nos fazer acreditar que basta pensar positivamente e assim nossos problemas desaparecem. Gostaria de oferecer no presente artigo algumas considerações. Para tanto, começo com a frase celebre de Jesus: "Quem quer me seguir tome a sua cruz e siga-me".

Parece-me que o pensamento positivo explodiu mais fortemente nos anos 80, com as grandes demissões no mundo corporativo e o advento mais preponderante do "mercado". As empresas começaram a promover esses eventos sobre motivação porque, primeiro, não queriam pessoas reclamando sobre a instabilidade de seus empregos, e, segundo, queriam "enfiar" mais trabalho nas pessoas. Foi a partir dessa época que vender livros de autoajuda se tornou um grande negócio.

Analisando o pensamento positivo, imagine quando se recebe o diagnóstico de uma doença grave ou se perde o emprego. O melhor a fazer é encarar a realidade, descruzar os braços e agir rápido. Aí sim o resultado poderá ser muito positivo. Encarar a doença, e não ficar choramingando pelos cantos é diferente de somente "pensar positivo". Ter que fazer de conta que tudo é positivo é como ter uma segunda doença. O certo é assumir que não gostamos do que foi diagnosticado e lutar para encontrar formas de mudar as coisas.
Por que insisto que os livros de autoajuda, em grande parte são prejudiciais? Porque estamos acostumados a ouvir que, se pensarmos positivamente, as coisas boas virão. Muita gente pobre ouve isso nas igrejas: Deus quer que você seja rico, Deus quer que você tenha uma casa maior. E aí, se algo acontece já parece milagre, e o seu esforço? É claro que Deus faz milagre, mas não é fruto do acaso! Esse tipo de pensamento já arruinou muitas vidas e faz parte do pensamento positivo, aliás, no caso religioso, Deus não é o que É, Ele é fruto da nossa cabeça, fruto do pensamento positivo. Imagine se Jesus dissesse na cruz: "Não, isso não é nada, é fruto do meu pensamento negativo"!

Nos níveis mais altos do mundo empresarial, também havia essa ideia de que nada poderia dar errado. Se algum funcionário levantasse alguma dúvida, seria mandado embora, porque não queriam trabalhar com pessoas negativas. As pessoas não podem continuar se autoenganando continuamente sem correr sérios riscos. Com isso, não proponho pessoas pessimistas, enganadas, e sim realistas, de bem com a vida, não obstante as circunstâncias.

Outro fato é que a ideologia do pensamento positivo é terrivelmente individualista. É só você que tem que mudar, o mundo não. Os livros de autoajuda nunca perguntam como seus desejos podem entrar em conflito com os do outro. Outra questão é que, no pensamento positivo, não se ver o mundo de forma ampla, pensar no que ele está fazendo com você, é visto como uma tentativa de encontrar uma desculpa para seus problemas. Se você pensa que seus problemas se devem à discriminação racial ou ao fato de você ter nascido pobre, isso não passa de uma desculpa, porque você tem tudo para ser bem sucedido e superar qualquer coisa. Porém, precisa mudar não só você, necessita-se lutar também contra as injustiças com os outros.

Ademais somos energia e dela tiramos nossa força vital. Se carregarmos nossas "baterias" para o pensamento positivo também criamos várias implicações, por exemplo, se você lê esses livros de autoajuda e neles coloca a soluções de seus problemas, aprende que tem que acordar, recitar afirmações para si mesmo, colocar um quadro na parede e pregar nele figuras do carro e da casa que quer... É muita energia mental. E as pessoas que praticam isso acabam se afundando ainda mais na própria culpa.

Porém, por que os livros de autoajuda são tão populares? Eis uma pergunta inteligente. Porque não se quer enfrentar a realidade. É claro que seria ridículo achar sempre que tudo vai dar errado, pensando só sobre nossos defeitos. Mas por que não tentar olhar para o mundo, tanto quanto possível, como ele é? E ver quais são as oportunidades e os perigos, e aí tentar descobrir o que fazer a respeito, seja o aquecimento global, seja o desemprego?

Mas alguém pode perguntar: para curar a depressão não é necessário pensamento positivo? Achar que tem cura é diferente de pensamento positivo, porque é uma doença séria, que requer algum tipo de intervenção, como terapia ou medicação. Você não pode simplesmente passar panos quentes dizendo: pense positivamente. Nos Estados Unidos, berço do pensamento positivo, consome-se dois terços do mercado global de antidepressivos, um clássico exemplo de contradição.

*Meus amigos, quem sabe noutra oportunidade aprofundo a reflexão sobre as raízes deste pensamento.
*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados

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