Publicarei aqui artigos, na visão da igreja católica, que tratam de temas da atualidade.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Nem sempre a voz do povo é a voz de Deus

Não sei quem foi o "inteligente" que criou esta frase que não corresponde à verdade: "a voz do povo é a voz de Deus". Na antiga Roma, os imperadores costumavam dizer que o povo só precisava, para ser enganado, de "pão e circo". O povo, para muitos, não passa de objeto de manipulação. Por isso, muitos costumam usar o chavão: "a voz do povo é a voz de Deus", agora querem baixar a maioridade penal usando a comoção da população amedrontada.

A voz do povo até pode ser a voz de Deus, mas a voz de Deus nem sempre é a voz do povo. O clamor social pela redução da maioridade não é a voz de Deus, pode ser a voz do Diabo.

Você diria que, quando o povo clamava pela crucifixão de Jesus Cristo, não obstante Pôncio Pilatos se recusasse a crucificá-lo, a voz do povo era a voz de Deus? Bem, se a voz do povo, naquela ocasião, era a voz de Deus, somos forçados a concluir que a voz de Deus era a voz do Diabo. É um escândalo, porque neste caso, Deus almejava matar a si mesmo.

Segundo alguns órgãos de imprensa, 84% da população brasileira é favorável à redução da maioridade penal. Seria, neste caso, a voz do povo a voz de Deus ou a voz do Diabo? Hitler, ditador e assassino que governou a Alemanha e desencadeou a II Guerra Mundial, subiu ao poder e executou suas políticas de morte - apoiado pela maioria do povo. A voz do povo, em relação a Hitler, era a voz de Deus? E as vezes que elegemos os anões da previdência, os parlamentares da máfia das ambulâncias, do mensalão, nossa voz (voto) era a voz de Deus?

Mas alguns espertalhões, que querem dar pão e circo, irão se utilizar do sofisma denominado: "apelo à Multidão", que consiste em afirmar que algo é sensato apenas porque a maioria aprova. O critério da verdade não é quantitativo, mas qualitativo. Aliás, "Justiça", para "certas pessoas de influência" na sociedade, é forjar uma retórica que veda à população o direito de uma sociedade justa. Quem poderia legalmente usufruir as benesses da sociedade - não lhe é permitido, quem não pode legalmente, infelizmente é quem usufrui. Por exemplo, os bandidos de colarinho branco não ficam presos porque têm dinheiro e podem pagar bons advogados ? como se realmente não fossem culpados. É meu amigo/a, retórica é bem diferente do real.
Com isso, simplesmente digo que muita gente fala de justiça e age injustamente. Então como pensar em paliativos, sem agir concretamente nas causas da violência? Façam o que quiserem ? criando mais Leis ? de nada valerá se o nosso agir não mudar como sociedade, como família, como indivíduo.

Portanto, neste caso, a voz do povo nunca foi - não é - e nunca será a voz de Deus.

*Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados.

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