Publicarei aqui artigos, na visão da igreja católica, que tratam de temas da atualidade.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A intolerância dos “pacifistas”!

Na semana passada, no meu artigo sobre a Jornada Mundial da Juventude, prometi falar sobre incidentes que aconteceram em Madri. Escrevi que havia grande paz e alegria por parte dos católicos.

Então o que presenciei? Infelizmente vi pequenos grupos raivosos que queriam forçar a multidão a se indignar contra o Papa e a Igreja, pois diziam que a Igreja não respeita os direitos humanos, que é contra a liberdade, etc. Mas foi exatamente o contrário, pois enquanto dois milhões pacificamente desejavam expressar sua fé, sua liberdade religiosa, sem ofensas a ninguém, pequenos grupos que se diziam sem fé, queriam impedir, exatamente em nome da liberdade, as manifestações livres.

Mas o que usaram para persuadir a imensa massa de jovens? Nem sempre o diálogo, mas a agressividade física e verbal, assim um jovem de campo Grande foi agredido verbalmente por um manifestante que o insultava com as mais variadas afrontas, por ser ele um cristão, que segundo o agressor era uma aberração.

Outras vezes, tentando jogar objetos nos jovens e até um protesto contra o próprio Papa, a polícia teve que intervir, pois as manifestações eram demasiadas agressivas. Ficou claro que não usaram as mesmas armas que exigiam, isto é, pediam liberdade, mas não respeitaram quem a pratica, pediam respeito, mas não o ofereceram para quem manifestava o direito à fé, pediam o direito ao casamento das pessoas do mesmo sexo, mas não respeitaram quem em nome da fé, pensa diferente.

Assim, as únicas manifestações de violências que foram vistas em Madri foram exatamente daqueles grupos que pregam que não sejam praticadas violências aos seus direitos. Aliás, antes do anúncio de que o Rio de Janeiro seria próxima sede da Jornada Mundial da Juventude, em 2013, na internet e na imprensa em geral do Brasil, não se falava na alegria e na paz reinante entre os jovens peregrinos, mas simplesmente dizia que o Papa fora recebido com manifestações contrárias à sua presença naquele país, sem sequer dizer uma palavra sobre as coisas boas dirigidas ao chefe da Igreja, dia a pós dia, muito menos mencionavam que havia uma juventude do mundo todo numa grande manifestação de fé, exatamente daqueles que são considerados, muitas vezes, como extravagantes e irresponsáveis: os jovens.

Confesso que ao ler tais noticias, percebi claramente que há um propósito em esconder a beleza do cristianismo e noticiar aquilo que se opõe a ele, sobretudo, mostrando os cristãos como pessoas desfavoráveis à liberdade e ao progresso. Afinal, a quem serve certos setores da mídia? Por que os cristãos representam tamanha ameaça a estes setores? São perguntas que ainda não sei responder com muitos argumentos, mas que podem ser constatadas facilmente a partir de tais fatos.

Um grande jornal espanhol também fez algumas considerações similares, ao dizer que a raiva laicista, em nome da liberdade, vem se tornado uma grave ameaça à própria liberdade.

Pe. Crispim Guimarães
Pároco da paróquia Cristo Rei, Laguna Carapã. MS

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Cristianismo perde fiéis em todas as classes

“Estudo divulgado pelo economista Marcelo Néri, a partir de dados do IBGE, indica que, entre 2003 e 2009, o total de católicos caiu em todas as classes sociais, recuando de 74% para 68% da população brasileira. A porcentagem dos sem religião subiu também em todas as faixas”. Este enunciado foi postado na Folha de São Paulo, dia 24 de agosto, mais precisamente sobre a Igreja Católica.

No entanto, dias antes, outro enunciado dizia que o número de protestantes sem igrejas cresceu de 4% para 14% em todas as classes, isto é, 14% dos evangélicos não frequentam mais nenhuma igreja, dentre elas, se dizia, a Universal do Reino de Deus perdeu 24% dos seus fiéis, talvez para seus ex-pastores, como RR Soares, da Igreja Internacional da Graça, cunhado de Edir Macedo e Valdomiro, “apóstolo”, fundador da Igreja Mundial. Infelizmente podemos constatar que em todas as igrejas há uma diminuição do número de adeptos.

Quanto a Igreja Católica, há mais de 10 anos atrás, Dom Eugênio Sales, Cardeal Arcebispo Emérito do Rio de Janeiro, disse que se 40% dos católicos deixasse a nossa Igreja, não significaria muito, pois sabemos que o número daqueles que frequentam os templos é de no máximo 15%.

Em Laguna Carapã, município de quase 6.500 habitantes, onde 70% dizem-se católico, 18% participam semanalmente das missas, estes dados eu mesmo coletei, semana a semana, nas celebrações que presido, quando observei que aproximadamente 800 pessoas participam das missas. As igrejas estão cheias, mas e os outros 82% que se dizem católicos, onde estão?

Se este número aumentar para 40%, como queremos, teremos de triplicar também o número de padres e religiosas, para triplicar de igual maneira a celebração dos sacramentos, além de aumentar significativamente o tamanho das igrejas, quando não, construir outras em lugares variados.

Por isso, não acho nada interessante as pesquisas que dizem que 70% da população brasileira é católica, assim como Dom Eugênio, prefiro acreditar que católico é aquele que participa regularmente dos sacramentos e não o que aparece no dia do batizado do filho, no casamento e na missa de sétimo dia.

É uma pena que o que vem acontecendo entre os católicos esteja agora se repetindo entre os evangélicos. A Igreja Católica, a partir do Documento de Aparecida, fruto da Quinta Conferência Episcopal Latina Americana, em 2007, constatou que são muitos os batizados e poucos os evangelizados.

Com isso, sinalizou que primeiro devemos evangelizar, o que significa tomar consciência da própria Igreja, dos seus Sacramentos, da sua história e, sobretudo da pessoa que a fundou: Jesus Cristo, partindo para atingir os afastados, ou aqueles não tiveram nenhum contato com ela, que é o caso de uma nova geração que nasce e nascerá destes e que não têm igreja ou religião.


Padre Crispim Guimarães
Pároco da Paróquia Cristo Rei, Laguna Carapã, MS.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

As novas configurações de famílias

Pe. Crispim Guimarães dos Santos*

Amigos, não são poucas às vezes que sou convidado para conferências e debates sobre os mais variados temas, nos mais diferentes lugares geográficos e acadêmicos. De Dourados, apresento um programa na Rádio Coração 95,7, todos os sábados, das 7h30 às 9h00, onde trato dos mais alternados problemas da sociedade local, sul-mato-grossense e brasileira, assim como assuntos de cunho universal, pois vivemos num mundo globalizado.
Nestes ambientes, meus contatos, debates e conversas foram com políticos, advogados, juízes, promotores, policiais, psiquiatras (médicos das mais variadas especialidades), psicólogos, sociólogos, dependentes químicos, "vítimas das violências" e religiosos de diferentes confissões.
Os temas tratados pelo elenco citado, imaginem vocês, são os mais inusitados e variados possíveis. Quando tratamos de problemas, 99% falam do esfacelamento familiar como causador dos diversos males existentes na atual sociedade que vive, como nunca, uma época de mudança ou, como outros chamam, mudança de época. Enfim, faço uma tempestade de ideias para pensar a família enquanto lugar social formador, micro "organismo" da sociedade. Se todos identificam a família como a causa, é bom pensar com carinho nesta "sociedade doméstica", não acham?
Para o judaísmo que, de certa forma, é o pai do conceito de família ocidental, família é Rab’at, que significa esposo, esposa, filhos, sogro, sogra, tios, irmãos, empregados, um clã. Os medievais conheciam a família (matrimônio) como "mater e múnus", isto é, ofício ou tarefa da mãe e/ou "pater e múnus": ofício do pai. A mãe tinha a tarefa de cuidar e o pai de prover. O direito da Igreja fala de pacto, a teologia católica o define como "participação especial na obra criadora de Deus".
Obviamente, estes conceitos dentro de "uma mudança de época" não se sustentam mais por si só. No entanto, se o ser humano evolui, não o faz do nada, talvez daqui seja possível fazer uma reflexão. Se estas visões, num mundo pós-moderno, desprezam este passado, não estariam negando a própria evolução? Será necessário destruir tudo para encontrar um caminho novo? Não daria para aproveitar o que de bom estas visões deixaram ao longo dos séculos? Ética, moral, autoridade, respeito, religião, limites, amor, tempo para a família, foram valores que, mesmo não fazendo a sociedade mais perfeita como imaginamos, sustentaram-na ao longo de milênios. Não estaríamos precisando recobrá-los, de algum modo, adaptando-os aos novos tempos?
Ora, se drogas, álcool, violência, desonestidade assolam a sociedade global, nada mais representam do que um grande grito de socorro social e individual que clama aos nossos ouvidos e corações e, como disseram os profissionais com os quais tive contato, o problema está nas novas configurações de família. No entanto, não devemos apenas culpar a família, pois culparíamos a nós mesmos, mas devemos discutir e propor. Como viram, não tenho respostas, tenho constatações e perguntas. Ajudem-me a respondê-las.
Se aceitarem uma sugestão, posso oferecer: a religião ajuda, e muito, desde que bem vivida, sem fundamentalismo e sem hipocrisia.

*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Por trás das palavras

Pe. Crispim Guimarães*

Quando se trava uma luta, as partes costumam dizer: "guerra é guerra", assim vemos cotidianamente na questão da preservação da vida e dos direitos humanos. Porém, existe uma grande diferença entre os que dizem defender a vida e seus direitos e o outro lado.
Um o faz porque vê a vida como um todo, outro é capaz de defender algumas vidas impondo a morte. Mas o discurso é: somos a favor da vida e dos direitos humanos. Na realidade são a favor de algumas vidas e dos direitos de poucos, desde que seja do mais forte.
Tomemos sete pontos, hoje muito em evidência e que são apresentados como direitos, contudo na realidade são afirmações falsificadas com máscara de verdade. Em guerra vale tudo, dizem. Vejam:
a) No Brasil não existe só católicos, por isso a Igreja não pode impor seus princípios. (Ótimo, seria verdade se fosse esta a questão). O problema não é a Igreja impor, porque já afirmava o filósofo Emanuel Kant, que toda norma justa se torna universal, portanto se na Igreja existe algo justo ou em outra instituição, vale para todos, a não ser que não se queira a justiça como regra. Por exemplo, "não matar", quinto mandamento, vale para católicos e não católicos.
b) O Estado é laico (e eu acredito que deve ser), por isso não deve admitir leis religiosas. Porém se o Estado é laico não significa que exclua o povo que é religioso. No Brasil, a maioria esmagadora é cristã e o Estado não pode fechar os olhos diante disto, é seu dever respeitar seus cidadãos, caso contrário, torna-se uma ditadura. Se o Estado é democrático não pode proibir a manifestação de seu povo, pois os cristãos podem se expressar a partir de sua fé, já que não são cidadãos de segunda classe. Se fosse uma minoria teria direitos, como não podem se manifestar sendo maioria?
c) Só os atrasados são a favor do não uso de células-tronco embrionárias, já que 75% dos brasileiros são favoráveis, mas não se esclarece que quase a totalidade dos 75% são a favor das células-tronco adultas, não da morte de embriões humanos como querem grupos econômicos e "certos cientistas". "Se a população desconhece a diferença, como pode ser chamada a se definir a favor ou contra?"
d) O uso de células dos embriões, só não aconteceu antes porque a Igreja é contra a ciência, dizem alguns segmentos. Mentira. A Igreja é totalmente a favor da pesquisa com células-tronco adultas e é contra sim, as embrionárias, pois luta pela vida dos inocentes, contra os interesses econômicos, desencadeados por poderosas ONGs.
e) O maior número de abortos no Brasil é realizado por mulheres católicas! Olhe a maldade nesta notícia. Se 74% dos brasileiros são católicos, e os outros 26% estão divididos entre evangélicos, espíritas, sem religião, etc., é claro que o maior número tem que sair dos 74% e não de 26%, é proporcional. É necessário recordar que deste percentual, 74%, somente 20% freqüenta e assume a vida sacramental, portanto a notícia é profundamente tendenciosa.
d) Deve-se aprovar a lei da homofobia (para os grupos GLTB), pois muitos sofrem com piadas, são mortos nas esquinas, etc. Ora estas pessoas antes de terem outra orientação sexual, são pessoas, não é o assassino de homossexual que deve ir para a prisão, mas o assassino de um ser humano. Os cristãos também sofrem descriminação quando pregam a virgindade, o celibato, a honestidade, façamos uma lei também só para nós. A lei deve ser para todos, pois se uma classe consegue privilégios, as demais serão oprimidas. Todas as leis são para todos os seres humanos. Matou branco, negro, rico, pobre, heterossexual ou homossexual, cadeia para quem praticou o crime, não porque é este ou aquele. Esta deveria ser a grande luta da sociedade: aplicar as leis já existentes.
e) Se a lei da homofobia for aprovada, nem um Reitor de Seminário (onde se forma padres) poderá mandar embora um seminarista que tenha práticas homossexuais, pois será acusado de descriminação, no entanto, poderá mandar aquele que mesmo no seminário - pratica a heterossexualidade, já que não pode ser acusado de descriminação. Mas existe um agravante. Se o homossexual não puder ser "excluído" do seminário, quando um dia, praticar a homossexualidade, todos atacarão a Igreja, esquecendo-se que quis o Reitor evitar tal situação.
Estes são apenas alguns sofismas difundidos como direitos. O que é sofisma? Argumentos falsos ou raciocínios defeituosos intencionalmente aplicados para induzir a erros e que confundem muito o nosso povo. Procuremos a raiz de cada problema e cuidemos para evitar a guerra de palavras travada todos os dias nos mais variados ambientes. Jesus adverte: "os filhos do "mundo" são mais espertos que os filhos da luz".

*Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados

quarta-feira, 17 de março de 2010

Economia e vida

Pe. Crispim Guimarães*

Este é o tema da Campanha da Fraternidade (CF) 2010 e tem como lema: "Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24). A Igreja Católica no Brasil, há mais de quatro décadas, desenvolve estudos e debates na quaresma, através da CF, com o intuito de fazer uma reflexão acerca dos temas pertinentes nos respectivos anos.
Muitos pensam que a Igreja não tem os recursos metodológicos e acadêmicos para desenvolver tais temas, mas, ao contrário, tais temas são muito bem pesquisados por pessoas das mais diversas áreas do saber. A cargo da Igreja fica imprimir uma visão cristã sobre as diferentes realidades.
O texto-base é sempre muito rico, geralmente um material de primeira grandeza que pode iluminar a vida social das comunidades. Neste ano de 2010, inclui críticas à crescente dívida interna do país de mais de um trilhão e seiscentos milhões de reais, às altas taxas de juros, uma das mais elevadas do mundo, à elevada carga tributária, ao sistema financeiro internacional, plenamente vigente no Brasil, onde os bancos são as empresas mais lucrativas, sendo as instituições financeiras mais rentáveis do planeta que recebem mais de 100 bilhões de juros pagos pelo governo com o dinheiro do contribuinte, critica também o Programa de Aceleração do Crescimento.
Quando fala da dívida interna, o texto base ressalta que, "apesar dos gastos com juros e amortizações da dívida pública, a mesma ainda consome mais de 30% dos recursos orçamentários do país e não para de crescer". Segundo o professor de economia Carlos Vitoratti, se continuar neste ritmo, em seis anos, o governo não terá a mínima condição de investir nos serviços básicos: educação, saúde, policiamento, infraestrutura, etc., limitando a capacidade do governo de destinar verbas aos investimentos sociais. O caminho, diz o economista, seria renegociar inteligentemente a parcela interna como fizeram com a dívida externa.
Apesar da propaganda do Governo sobre a economia, muitas são as máscaras deste sistema excludente, pois "escutamos o discurso oficial de que o país caminha para ser a quinta economia do mundo. Mas é preciso perguntar: se o cenário é tão bom, onde estão os recursos? Ainda temos quase 40 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza e não há trabalho e saúde para todos".
Obviamente, nenhuma das edições da Campanha da Fraternidade pretendeu atacar governos a partir de suas bandeiras partidárias, e não é o caso agora, todavia estimular os cristãos a abandonarem a passividade, combatendo a omissão da comunidade religiosa em relação ao uso perverso das ferramentas da economia.
A reflexão "deve ser um instrumento à disposição das comunidades cristãs e de todas as pessoas de boa vontade para enfrentarem com consciência crítica os temas do desenvolvimento e da justiça, da economia e da vida humana no Brasil e no mundo. Precisamos denunciar a perversidade de todo modelo econômico que vise em primeiro lugar o lucro, sem se importar com a desigualdade, miséria, fome e morte. A Campanha nos convida a lutar para: incluir a alimentação adequada entre os direitos previstos na Constituição Federal; erradicar o analfabetismo; eliminar o trabalho escravo; combater o trabalho infantil; conseguir uma tributação justa e progressiva; garantir o acesso à água e fazer uma verdadeira Reforma Agrária".
Porém, a Campanha da Fraternidade também indica algumas iniciativas que estão dando frutos, é o caso dos fundos solidários já existentes em mais de 500 comunidades. Têm o apoio de entidades como a Cáritas Brasileira, ligada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que oferece suporte a essas ações desde a década de 80 e, na Diocese de Dourados, tem mais de 60 projetos em andamento.
A Campanha da Fraternidade vai até 28 de março, Domingo de Ramos, e quer arrecadar doações durante este período. Os recursos serão destinados para fundos solidários que promovem o desenvolvimento de grupos e comunidades, mobilizados para buscar seu desenvolvimento local e autonomia através de iniciativas de Economia Solidária, Economia de Comunhão, Cáritas e outras, onde os recursos passam pela participação e gestão da comunidade.
Cada pessoa pode fazer a sua parte, pois não podemos servir a Deus e ao Dinheiro, entretanto podemos servir a Deus através do dinheiro, basta usá-lo corretamente. Lembre-se, domingo, dia 21 de fevereiro, às 18h, no Ginásio de Esportes, na Rua Monte Alegre, será celebrada a missa de abertura da Campanha da Fraternidade 2010.

*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Por que nem sempre, como cristãos, lemos a Bíblia, rezando-a?

Segundo o calendário católico, o mês de setembro é o mês da Bíblia. Nele somos convidados a refletir mais profundamente sobre o valor da Palavra de Deus, como instrumento de transformação pessoal e comunitário. Nas muitas atividades que desempenho na Diocese de Dourados, é comum ouvir muitas perguntas, uma delas é por que nem sempre, como cristãos, lemos a Bíblia, rezando-a?
Acredito que entre os católicos foi fruto do crescimento da Igreja, que confundiu quantidade com conhecimento de Cristo. Mas outros fatores desencadearam tais realidades: a pouca "cultura" do povo, poucos sacerdotes para formar as pessoas, etc. O fato, é que perdemos muito tempo sem fazer da Palavra a fonte de formação de todos os cristãos.
Contudo, a Palavra exige uma boa interpretação, caso contrário, pode ser usada como instrumento fundamentalista, gerando assim, não os frutos que Deus quer produzir e sim, as desordens que nós somos capazes de ocasionar.
Por isso, sua pergunta é interessante, porque começa lembrando que nem sempre lemos a Bíblia rezando-a. Eis algo que deve nos fazer pensar! O demônio também lia a Bíblia, basta lembrar quando ele tentou Jesus no deserto (cf. Mt 4, 4ss), o mesmo recordava passagens das Sagradas Escrituras com o desejo de deixar Jesus confuso acerca do seu ministério.
Portanto, qualquer um: incrédulo, historiador, pessoas com interesses diversos, podem ler a Bíblia. Lê-la rezando, é diferente, nem todos são capazes de fazê-lo. Um historiador pode simplesmente procurar na Bíblia fotos históricos – sem com isso verificar a teologia que permanece como "pano de fundo". Porém, o cristão deveria ser mestre neste ofício! Quem ler a Bíblia, por ser um livro que revela a fé de um povo, o povo de Deus, deve estar em espírito orante, onde o Espírito do Senhor quer revelar o que a Palavra tem a dizer àquele que reza. Não foi por acaso que aproximadamente há um milênio, se criou o método da Leitura Orante da Palavra, método que volta nos nossos dias com muita força.
São Paulo diz que "a Palavra de Deus é viva, eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes (...). Tudo é nu e descoberto aos olhos d’Aquele a quem haveremos de prestar conta" (Hb 4,12-13). A Palavra de Deus opera naquele que crê, naquele que a recebe e a acolhe. Ali ela dá muitos frutos. Ela é, portanto, um instrumento indispensável para a nossa santificação. Sem ela não conseguiremos ter os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5) sem ouvir, ler, meditar, estudar e conhecer a sua Palavra. São Jerônimo, que traduziu a Bíblia do grego para o latim, dizia que "quem não conhece a Palavra, e conhecer significa ler e rezar, não conhece a Deus".
O certo é que ela tem "poder", não foi por acaso que Jesus a utilizou como uma arma na luta contra o tentador, se Ele a usou, quanto mais nós precisamos dela! Assim, é importantíssimo o estudo da Bíblia, de maneira sistemática e organizada, se possível até, através de um curso bíblico. É preciso trazer a Palavra de Deus no coração, para poder sacá-la, na hora da tentação, como Jesus fez, para nos oferecer o exemplo.
Jesus é a própria Palavra de Deus, o Verbo de Deus que se fez carne (Jo 1,1s). Bem aventurados são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!´ (Lc 11,28). Quando Jesus explicava as Escrituras para os discípulos de Emaús, eles sentiam "que se lhes abrasava os corações" (Lc 24,32). Assim também continua a ser hoje, para todo aquele que reza a Palavra de Deus. Ela o purifica no fogo do Espírito Santo.
Todos os santos, sem exceção, mergulharam suas vidas nas Escrituras e deixaram-se guiar pelos seus ensinamentos. Pela meditação diária da Bíblia, o Espírito Santo vai nos santificando, isto é, fazendo com que, passo a passo, tenhamos, como disse São Paulo, "os mesmos sentimentos de Cristo Jesus" (Fl 2,5).
Hoje, fala-se que a catequese deve ser bíblica, que a pastoral deve ter mais a Bíblia como fundamento que os documentos (não estamos pedindo para esquecê-los), que Ela deve ser o nosso livro de cabeceira. Enfim, que retomemos a tradição, onde a Palavra de Deus tem lugar central, pois assim como a Eucaristia, a Palavra é um banquete que alimenta e fortalece na caminhada aqueles que creem.

*Coordenador de Pastoral e Assessor de Comunicação da Diocese de Dourados.

A sua língua é afiada para o bem ou para o mal?

Uma pesquisa entre jovens alemães a partir de 14 anos, revelou que as pessoas inventam alguma mentira a cada oito minutos: "São aproximadamente 200 inverdades durante o dia", seis mil durante o mês, calcule isto num ano...
Na Palavra de Deus encontramos diversas instruções e exortações em relação ao uso da língua. Por exemplo: "A morte e a vida estão no poder da língua, aqueles que a escolhem comerão do seu fruto". (Provérbios 18,21).
Transcrevo uma história que ilustra todo o poder do que falamos ou deixamos de falar. "Um homem riquíssimo tinha convidado muitas pessoas para uma festa. Encarregou seu cozinheiro-chefe de comprar os melhores alimentos. Este foi ao mercado e comprou línguas – somente línguas e nada mais. Apresentou-as como primeiro prato, segundo prato, etc., servindo somente línguas aos hóspedes. Os convidados elogiaram a composição da refeição e a ideia original do cozinheiro.
Mas, aos poucos começaram a ficar saturados de tanto comer línguas. O anfitrião irritou- se e mandou chamar o cozinheiro: Não mandei que você comprasse o que há de melhor no comércio? Ele respondeu: Existe algo melhor do que línguas? Ela é o vínculo na vida social, a chave para todas as ciências, o órgão que proclama a verdade e a razão. Graças ao poder da língua, edificam-se cidades e as pessoas tornam letradas e cultas. "É verdade, concordou o dono da casa. E mais uma vez encarregou o cozinheiro de preparar outro banquete para o dia seguinte, com a ressalva de comprar o que de pior houvesse na feira. Novamente este comprou línguas, somente línguas. Preparou-as das mais variadas maneiras para o banquete. Já que os convidados eram os mesmos, enojaram-se rapidamente do cardápio. O anfitrião sentiu-se ridicularizado e envergonhado, e gritou com chefe da cozinha: Não mandei que você comprasse o que há de pior? O que você está pensando? Por que serviu línguas outra vez? Ele respondeu: A língua também é o que há de pior no mundo, a mãe de todas as contendas e discórdias, a fonte de todos os processos judiciais, das diferenças de opinião e o instrumento que incita à guerra e à destruição. Ela é o órgão que propaga enganos e difamações. Pessoas são levadas ao mal, cidades são destruídas e vidas são aniquiladas pelo poder da língua".
Para o verdadeiro cristão, bem distante deve estar a mentira, a fofoca, a calúnia, a contenda e a língua hipócrita. É bom ler o Salmo 15,1-3.
Observem esta outra história. "Um Senhor idoso foi solicitado a conversar com um jovem de sua comunidade que havia roubado de seu chefe e estava na prisão. Parece que eu conheço de algum lugar, disse o homem ao jovem, você não me é estranho. Com certeza, respondeu o prisioneiro, já faz mais de dez anos, mas parece que foi ontem, pois me lembro claramente de nosso encontro. O senhor é o culpado de eu me encontrar nesta prisão. – Mas como? Surpreendeu-se o visitante. Em toda minha vida não lhe fiz mal algum! – Não propositalmente; mas certa vez eu vinha com meu pai de uma evangelização, quando encontramos com o senhor no caminho. Meu coração estava profundamente tocado pela pregação que ouviria e eu queria voltar para derramá-lo diante do evangelista. Mas aí ouvi o senhor ridicularizando o pregador, dizendo que ele era inculto e não sabia pregar direito. Essas palavras despertaram em mim um desprezo pela pregação que acabara de ouvir, e a partir de então parei de buscar a salvação da minha alma. Comecei a andar em más companhias e hoje estou aqui na prisão".
Portanto, tudo o que falamos fica registrado no céu. "Uma resposta branda aplaca a ira, uma palavra firme atiça a cólera". "A língua dos sábios, cura" (Pr 12,18;15,1), a língua que mente e calunia, é amaldiçoada.
Muitos males seriam evitados se a língua servisse à sua função natural. Cuidemos desta obra de arte do Criador!

*Assessor de Comunicação e Coordenador de Pastoral da Diocese de Dourados.